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In Verso

por S, em 10.02.16

Um leve roçar de lábios, suavidade

sobre a emoção urgente e violenta

campo de brutais batalhas em câmara lenta

em cada letra o peso da intensidade

 

Poema à força de lágrimas, poente de dor

demolição desesperada em busca da pureza

e eis que nascem da ruína a paixão e a beleza

e os escombros são apenas as pétalas de uma flor

 

Tomar a violência e senti-la no inverso

nas pontas dos dedos sublimação do profundo

de um olhar ou de um beijo em cada verso

 

Carregar no fértil ventre toda a magia

da arte de sentir de tudo o mais fundo

do Amor feito como é feita a Poesia

 

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publicado às 13:53

16

por S, em 09.02.16

Envolta num delicado véu de ternura

Crisálida rutilante que eu ainda protejo

Desperta no teu olhar puro um desejo

Ainda tão casto, tão pleno de brancura

 

Dos teus lábios impregnados de doçura

Do suave mel em cujo reflexo me revejo

Brota já a nascente do amor num ensejo

Que inundará no teu corpo toda a candura

 

Menina -mulher, semente de amor

Que nasça de ti a vida, o esplendor

Que só a glória da entrega pode dar

 

Toma em tuas mãos virgens o véu

Aponta os teus olhos doces ao céu

Estende as enormes asas, vai voar

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publicado às 19:53

Almas negras sensuais

por S, em 03.02.16

Alma alada que não és como as demais

tens da Pantera todo o porte de um império

Na luz do Sol tu és a sombra do mistério

e nas palavras és a réstia das vogais

 

Tens em ti a noite e como a chuva, cais

extensa e dispersa a impedir o vitupério

Em danças ardentes celebras a dor num cemitério

Minha alma soberana das almas negras sensuais

 

Na doçura da força tens o meu esteio

a sedução de magnetares que com indiferença semeio

Noutras almas mais claras, que invejo com uma inveja estranha

 

Tão diferentes de ti, mais luminosas e serenas

Mas que em comparação são gotas vergadas, pequenas

À liquidez poderosa de uma enorme Anã Castanha

 

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publicado às 13:11

Mudança

por S, em 02.02.16

Escrevo para ninguém, quando a direcção do vento muda.

Há quem corte cabelos, há quem compre sapatos,

há quem coma a solidão e há quem faça tiro aos pratos.

Em mim, tudo se nega. Fico calada, surda, cega.

Fecha-se a boca ao alimento, ferve-me o sangue de alma exangue,

tudo me morre, cessa o movimento

e o inverso engole-me, degolando-me as entranhas...

 

Quando muda o vento.

 

Sou a enjeitada, pobrezinha enferma, num leito de ruínas

pés descalços pela berma

 

à espera...

 

E o dia não acaba dentro da noite cerrada, o tempo fica parado

no meio do escuro da estrada; Um olhar que não me alcança,

uma mão que não me toca...

O frio do céu rouba-me a esperança e nem uma migalha em troca!

 

Escrevo para ninguém, quando a direcção do vento muda

Para ninguém que ninguém ajuda...

Quando rasos de água os meus olhos imploram;

Quando as minhas preces de joelhos choram...

Nada!, Ninguém... nem a sombra de um abraço vem.

No mundo sou a que a vida esqueceu.

 

E as palavras brotam tão puras, assim

Urgentes - tão vivas - de dentro de mim

A dizer em cada letra que Ninguém sou eu!

 

 

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publicado às 16:25

A Morte

por S, em 02.02.16

A morte és tu fora de mim

Uma espiral de demência, de tortura

A morte chega quando tu vais

Fechas a porta e entra a loucura

A eternidade que demora a tua partida

Comprime todo o ar no espaço de um átomo

E desespero enquanto tento respirar

Mas nem um átomo serve, de respiração sustida.

Não te dei a minha vida, não dei!

Com que direito a tens tu na tua mão?

Diz-me, para que a queres, se até eu a enjeitei?

Não é tua, não é minha, deixa-a cair no chão!

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publicado às 16:16

Crime e Castigo

por S, em 02.02.16

Nas asas do amor há borboletas que voam

Que choram baixinho, que pedem, que rezam

Que gritam caladas, que doem, perdoam

Que suportam as mágoas que ferem, que pesam

 

São gotas libertas que fogem dos olhos

de quem viu que o amor também morre afinal

outrora dispersas, reúnem em molhos

para escoar do peito o assassínio brutal

 

Nas asas do amor há magia e pó de estrelas

Mas no toque violento, que o deixa disperso

Borboletas morrem, Acendam-se velas!

Perdoe-se o crime, o maior do Universo

 

Que pena cruel, mais cruel do que a chama

cairá sobre aquele que cometeu o pecado:

Jamais nesta vida sentirá quem não ama

dentro do peito, a bater, o seu vôo delicado

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publicado às 16:10

Natureza

por S, em 02.02.16

Escuta o murmúrio do vento

Inspira-lhe tudo o que doa

Depois estende as tuas asas e voa

Que nem tudo nele é lamento

 

Observa na água o portento

Da delicadeza que por ela escoa

Da suavidade com que perdoa

À dureza da rocha o seu amor violento

 

Sente a fúria do fogo na chama

Lento a queimar como a alma que ama

Liberta a essência daquilo que és

 

Digere o aroma da terra molhada

Que vibra e se agita, que aceita a trovoada

E tu és a Natureza prostrada a teus pés

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publicado às 15:58

Cascais

por S, em 02.02.16

Ilha encantada da minha infância onírica

fustigada pelo mar numa imensidão serena

em cada pedra da calçada a inscrição de uma pena

feita de pérolas tiradas a uma ostra lírica

 

No estreito das ruas um poema de mímica

dançava ao sabor de uma brisa amena

E eu descalça a flutuar, uma galáxia pequena

no caos da vida rumo à morte fatídica

 

Na pele do sal o odor das algas ao sol

Em dias quentes um beijo de peixe no anzol

Resquício de saudade que da minha alma brota

 

Livre, selvagem, uma doce memória de criança,

das dunas condensadas dentro da minha esperança

de um mundo inteiro contido no grito de uma gaivota

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publicado às 15:36

O dia em que a Luz se apagou

por S, em 01.02.16

I

 

Quebrou a hora o já vago compasso

do sonho perdido, da infinita ilusão

gota escondida no fundo de um perdão

Amor em lento pranto, prostrado no meu regaço

 

Embalado, estrangulado, solitário num abraço

desmaiado, adormecido, desistente de exaustão

ignorado, rejeitado, abandonado à solidão

nas minhas mãos toma forma, é o meu caixão que faço.

 

N' O dia em que a Luz se apagou

nasceu em mim uma noite impassível

e do que era tudo apenas a Musa ficou

 

No meu colo o Mundo inteiro emudeceu

aos pés de um silêncio mortal, invencível

E nunca, nunca mais um dia amanheceu

 

 

II

 

Numa lenta agonia, num imenso torpor

na névoa densíssima a ocultar-me o Norte

a tua voz diluída perdeu já todo o sabor

e sinto apenas do meu sangue o travo forte.

 

Ó céu ardente, perante tamanho fulgor

quis a vida que me calhou em sorte

fazer-te a vontade, conceder-me este amor

e tirar-mo depois, lançando-me à morte...

 

Sepultai-me de uma vez, por Deus!

que não concebo os meus olhos sem os teus

Antes o fim que a minha Luz ausente, perdida.

 

Cega de ti nada suporto, tudo é tortura

violenta, impiedosa, irmã megera da loucura

Não posso!, Não quero!, Não aceito esta vida!

 

 

III

 

Maldita escuridão que em teu ventre me levas

no mais intenso grito que de mim não sai

acorrentada ao meu amor que em profundo abismo cai

Esconjuro-te, ó vida, que me prendes nas trevas

 

Que com o teu estéril vazio me cegas

deixando-me à deriva no sangue que se esvai

Não permitas a tragédia Deus meu, meu Pai

de sucumbir no amor que é tão meu e que me negas

 

Porquê, meu Deus? - Para quê, Senhor?

arrancar-me a adoração e devolver-me a dor

Numa extensão de mar, toda a água estagnada

 

Para que quero eu tanto céu, tanto ar

se os meus olhos desistiram de respirar

e nas minhas mãos mendigas não cabe mais nada?

 

 

IV

 

E tu, amor adorado, minha pele suave de marfim

olhos de âmbar báltico, lábios de mel, azul profundo.

Não vês o que eu vejo? Não sentes o fim do mundo?

Não se te rasga o peito como se me rasga a mim?

 

Permites que regresse ao fogo lento de onde vim

levando nos meus braços um querer já moribundo...

Como podes permitir que se mate um amor assim

sepultando-o, tão vivo!, no vazio do fim, no fundo?

 

E bastaria um sinal vindo de ti...

para saber que estou viva afinal, não morri!

Que em minha alma és tu que continuas

 

A viver, a dar-me vida eternamente

calando nos meus lábios a tua voz que mente.

Vem dar-me o amor que fizemos, não o destruas!

 

 

V

 

Numa réstia de esperança renasce a graça

de um Eu de mim ausente que regressa

Monção de amor, toda urgência, toda pressa

E de novo "Sou a expressão das tuas mãos de raça"

 

Doce blasfémia que os meus lábios trespassa

quando em pontas dos dedos a minha boca confessa

que em tudo o que és a minha alma tropeça

Que tu és Deus na escuridão que em mim grassa!

 

E por um instante todo o ar em torno

se enche de luz, se ergue, se ilumina

silêncio outrora gélido invade-me agora morno

 

Que em mim se funde e baixinho insinua

num jardim onde esvoaçam as tuas árvores da china

- É uma esperança vã, mas é uma esperança toda tua.

 

 

VI

 

E em cada um desses instantes, juro por Deus

por ti, por mim, pelo Universo

possuo o condão de matar cada verso

lançando-o, desfeito, para lá dos céus

 

De conceder às estrelas os brilhos que são meus

de segurar na minha mão todo o amor disperso

de apagar da vida todo o seu inverso

de concentrar os astros e fazê-los todos teus

 

Ah, felicidade suprema, tudo eterno

Amor, total e absoluto, sem ter fim

Verão no Verão, no Outono e no Inverno

 

Pulsares em catadupa, quasares estonteantes

as tuas mãos, o teu olhar, a tua voz em mim

Fosse toda a minha vida apenas um destes instantes

 

 

VII

 

Vem, menino meu, dá-me a tua mão

prende-a na minha, que não magoa, não enjeita

Dorme no meu sonho que é realidade perfeita

"Dorme, menino grande...", ouve a minha voz na canção.

 

Esta ternura infinita de relâmpago e trovão

que é toda de ti, meu amor maior, aceita

tudo o que é teu, todo o amor de que sou feita

para que não caia de rastos e morra no chão

 

Recebe-me, toma-me, mata-me o impossível

Longe de ti sou apenas ínfimo grão que flutua

Na perene cadência de Césio, irreversível

 

De uma chama que teima, que torna, que insiste

e desalmada chora e grita - Faz-me tua!

Porque outro amor assim, alma minha, não existe.

 

 

VIII

 

No fumo fátuo que de mim se desprende

vai toda a dor que existe por te não ver

e sinto então a luz que só o teu sorriso acende

tão breve e delicada, dentro do meu peito a nascer

 

Um amor alvo à porta da tua alma principia a morrer

a sucumbir de saudade porque não compreende

que continua a ser dela, que jamais deixará de o ser

Que a alma só não o sente porque o teu corpo o não entende

 

Afasta-te, vil guardião, a ti aponto a minha espada

Erguida pelos céus e pelo meu amor desembainhada

Liberta dele a alma quando eu a chamo

 

E num arroubo cessa o gesto, pendem braços

Impede-me a visão de ti de desfazer-te em pedaços

Oh, Deus!, vil guardião... também te amo!

 

 

IX

 

Rendo-me a ti mais que ao cruel destino

que me fez no amor que te tenho tão frágil e tão forte

e andarei pela vida a embalar-te, amado menino

até que um dia, finalmente, chegue a morte

 

Já a oiço, ao longe, no dobrar de um sino

Que me leve, me lamente, me conforte

No meu peito foste enorme e puro, cristalino

Na minha campa serás tu a minha sorte

 

Amor que te consagro até ao último dos meus dias

virás comigo, aninhado e protegido nestas mãos frias

entrelaçado no êxtase dos meus dedos de marfim

 

Rejeitado por um Deus a quem quis tanto

Náufrago em mim, morto de tanto pranto

Pelo fim de um outro amor que ditou o meu fim.

 

 

X

 

Quebrou a hora o já vago compasso

Perdeu-se a luz que o teu olhar me emprestou

Caiu dispersa a noite e o que de mim ficou

foi apenas um gesto, no meu peito esparso

 

E nas estrelas surgiu um fúlgido baço

e a escuridão tudo invadiu, nada restou

Não há Mundo sequer, o Mundo acabou

E o amor que era nós desfez-se do laço

 

De "Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas"

nada existe agora, toda a alegria morreu

 

E "Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água, e o nome amores"

Do nome que era o nosso ficará apenas o teu.

 

(30/01/2016)

 

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publicado às 17:08


Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

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