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O dia em que a Luz se apagou

por S, em 01.02.16

I

 

Quebrou a hora o já vago compasso

do sonho perdido, da infinita ilusão

gota escondida no fundo de um perdão

Amor em lento pranto, prostrado no meu regaço

 

Embalado, estrangulado, solitário num abraço

desmaiado, adormecido, desistente de exaustão

ignorado, rejeitado, abandonado à solidão

nas minhas mãos toma forma, é o meu caixão que faço.

 

N' O dia em que a Luz se apagou

nasceu em mim uma noite impassível

e do que era tudo apenas a Musa ficou

 

No meu colo o Mundo inteiro emudeceu

aos pés de um silêncio mortal, invencível

E nunca, nunca mais um dia amanheceu

 

 

II

 

Numa lenta agonia, num imenso torpor

na névoa densíssima a ocultar-me o Norte

a tua voz diluída perdeu já todo o sabor

e sinto apenas do meu sangue o travo forte.

 

Ó céu ardente, perante tamanho fulgor

quis a vida que me calhou em sorte

fazer-te a vontade, conceder-me este amor

e tirar-mo depois, lançando-me à morte...

 

Sepultai-me de uma vez, por Deus!

que não concebo os meus olhos sem os teus

Antes o fim que a minha Luz ausente, perdida.

 

Cega de ti nada suporto, tudo é tortura

violenta, impiedosa, irmã megera da loucura

Não posso!, Não quero!, Não aceito esta vida!

 

 

III

 

Maldita escuridão que em teu ventre me levas

no mais intenso grito que de mim não sai

acorrentada ao meu amor que em profundo abismo cai

Esconjuro-te, ó vida, que me prendes nas trevas

 

Que com o teu estéril vazio me cegas

deixando-me à deriva no sangue que se esvai

Não permitas a tragédia Deus meu, meu Pai

de sucumbir no amor que é tão meu e que me negas

 

Porquê, meu Deus? - Para quê, Senhor?

arrancar-me a adoração e devolver-me a dor

Numa extensão de mar, toda a água estagnada

 

Para que quero eu tanto céu, tanto ar

se os meus olhos desistiram de respirar

e nas minhas mãos mendigas não cabe mais nada?

 

 

IV

 

E tu, amor adorado, minha pele suave de marfim

olhos de âmbar báltico, lábios de mel, azul profundo.

Não vês o que eu vejo? Não sentes o fim do mundo?

Não se te rasga o peito como se me rasga a mim?

 

Permites que regresse ao fogo lento de onde vim

levando nos meus braços um querer já moribundo...

Como podes permitir que se mate um amor assim

sepultando-o, tão vivo!, no vazio do fim, no fundo?

 

E bastaria um sinal vindo de ti...

para saber que estou viva afinal, não morri!

Que em minha alma és tu que continuas

 

A viver, a dar-me vida eternamente

calando nos meus lábios a tua voz que mente.

Vem dar-me o amor que fizemos, não o destruas!

 

 

V

 

Numa réstia de esperança renasce a graça

de um Eu de mim ausente que regressa

Monção de amor, toda urgência, toda pressa

E de novo "Sou a expressão das tuas mãos de raça"

 

Doce blasfémia que os meus lábios trespassa

quando em pontas dos dedos a minha boca confessa

que em tudo o que és a minha alma tropeça

Que tu és Deus na escuridão que em mim grassa!

 

E por um instante todo o ar em torno

se enche de luz, se ergue, se ilumina

silêncio outrora gélido invade-me agora morno

 

Que em mim se funde e baixinho insinua

num jardim onde esvoaçam as tuas árvores da china

- É uma esperança vã, mas é uma esperança toda tua.

 

 

VI

 

E em cada um desses instantes, juro por Deus

por ti, por mim, pelo Universo

possuo o condão de matar cada verso

lançando-o, desfeito, para lá dos céus

 

De conceder às estrelas os brilhos que são meus

de segurar na minha mão todo o amor disperso

de apagar da vida todo o seu inverso

de concentrar os astros e fazê-los todos teus

 

Ah, felicidade suprema, tudo eterno

Amor, total e absoluto, sem ter fim

Verão no Verão, no Outono e no Inverno

 

Pulsares em catadupa, quasares estonteantes

as tuas mãos, o teu olhar, a tua voz em mim

Fosse toda a minha vida apenas um destes instantes

 

 

VII

 

Vem, menino meu, dá-me a tua mão

prende-a na minha, que não magoa, não enjeita

Dorme no meu sonho que é realidade perfeita

"Dorme, menino grande...", ouve a minha voz na canção.

 

Esta ternura infinita de relâmpago e trovão

que é toda de ti, meu amor maior, aceita

tudo o que é teu, todo o amor de que sou feita

para que não caia de rastos e morra no chão

 

Recebe-me, toma-me, mata-me o impossível

Longe de ti sou apenas ínfimo grão que flutua

Na perene cadência de Césio, irreversível

 

De uma chama que teima, que torna, que insiste

e desalmada chora e grita - Faz-me tua!

Porque outro amor assim, alma minha, não existe.

 

 

VIII

 

No fumo fátuo que de mim se desprende

vai toda a dor que existe por te não ver

e sinto então a luz que só o teu sorriso acende

tão breve e delicada, dentro do meu peito a nascer

 

Um amor alvo à porta da tua alma principia a morrer

a sucumbir de saudade porque não compreende

que continua a ser dela, que jamais deixará de o ser

Que a alma só não o sente porque o teu corpo o não entende

 

Afasta-te, vil guardião, a ti aponto a minha espada

Erguida pelos céus e pelo meu amor desembainhada

Liberta dele a alma quando eu a chamo

 

E num arroubo cessa o gesto, pendem braços

Impede-me a visão de ti de desfazer-te em pedaços

Oh, Deus!, vil guardião... também te amo!

 

 

IX

 

Rendo-me a ti mais que ao cruel destino

que me fez no amor que te tenho tão frágil e tão forte

e andarei pela vida a embalar-te, amado menino

até que um dia, finalmente, chegue a morte

 

Já a oiço, ao longe, no dobrar de um sino

Que me leve, me lamente, me conforte

No meu peito foste enorme e puro, cristalino

Na minha campa serás tu a minha sorte

 

Amor que te consagro até ao último dos meus dias

virás comigo, aninhado e protegido nestas mãos frias

entrelaçado no êxtase dos meus dedos de marfim

 

Rejeitado por um Deus a quem quis tanto

Náufrago em mim, morto de tanto pranto

Pelo fim de um outro amor que ditou o meu fim.

 

 

X

 

Quebrou a hora o já vago compasso

Perdeu-se a luz que o teu olhar me emprestou

Caiu dispersa a noite e o que de mim ficou

foi apenas um gesto, no meu peito esparso

 

E nas estrelas surgiu um fúlgido baço

e a escuridão tudo invadiu, nada restou

Não há Mundo sequer, o Mundo acabou

E o amor que era nós desfez-se do laço

 

De "Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas"

nada existe agora, toda a alegria morreu

 

E "Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água, e o nome amores"

Do nome que era o nosso ficará apenas o teu.

 

(30/01/2016)

 

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publicado às 17:08


Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

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